Religiões de origem africana são barradas no Centro Ecumênico das Olimpíadas


- Macumbeiro?????
Sim. Diga que é macumbeiro. Só isso. Não bata boca. E, calmamente, observe o nariz torto e a cara de desgosto que vai se contorcendo em sua direção. Experimente. Seria até bem divertido, se não fosse tão triste.

Já vi alunos serem rejeitados por seus colegas. Já vi trabalhos sobre cultura africana serem rasgados por alunos e seus pais. Coisas de diabo não entram na casa deles. Por essas e outras razões, as religiões africanas, aqui no Brasil, não são assumidas, oficialmente, pela grande maioria.

As religiões africanas são, sim discriminadas. E frequentadas, por muitos. Mas declaradas e assumidas por poucos. Muito poucos. Só pelos fortes. Poucos países tem um povo mais ecumênico que o Brasil. Na hora que o amor se vai. No desemprego. No abandono. Na solidão. Quando a vida chicoteia, a gente corre para várias religiões. A macumba, inclusive.
O remédio para o sofrimento pode estar no abraço bom da entidade incorporada. Nas palavras sábias de um caboclo. No olho no olho de um Zé Pelintra. Na hora do aperto, quem nunca foi se socorrer no centro do amigo? Confesse, você já foi, escondido, mas foi. Quem já foi pode não confessar. Mas sabe o bem que fez.

Ecumênico vem do grego. Da palavra oikoumene. Entre seus vários significados: casa. Lugar de vida e bem estar. A palavra ecumênico aparece várias vezes no evangelho. Tem o sentido de mundo inteiro. Toda a espécie humana. De todos os lugares e culturas. Sem discriminação. No Brasil, veja só, ecumênico tem sentido mais restrito. Entendido como “só o que a gente acha certo”. As outras, não. Um Centro Ecumênico será criado para os atletas, nas olimpíadas. E as religiões afrodescendentes foram barradas. Ficaram de fora da Vila Olímpica. Batuque na cozinha, sinhá não quer. Era assim na escravidão. É assim agora. Escravos fora da casa grande mais uma vez. Ou seguem a religião do senhor de engenho. Ou não seguem nada. Negro não era para ter nem alma. Quanto mais religião. Não é mesmo?

Muito bom que os senhores de engenho tenham deixado cair o pano da falsa aceitação. E deixado o rabo de fora. O velho preconceito velado. O racismo que tanto se nega que haja solto por aí. Bem aqui na nossa cara. Vamos aceitar? Mudamos até de século. Mudou alguma coisa? Estamos falando de discriminação racial. A religião trazida pelos negros, mais uma vez, não serve. Não serve para quem? Por quais motivos? Não serve porque dá amparo. Amparo dá força para a luta. Isso não é interessante. Dá trabalho para o feitor.

Se você, querido atleta, for do cristianismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo e budismo, parabéns! Você tem a religião certa. Vai poder ter assistência religiosa num momento delicado, de maior tensão, de perdas e vitórias, de medo. Um reconforto na alma. E as outras almas? As dos não escolhidos? As dos não premiados? Não merecem atenção? São menos nobres? Rezar o terço pode. Bater tambor, não? Por que? Estamos sendo mandados de volta para a senzala. De onde, pelo que parece, algumas pessoas preferiam que nós nunca tivéssemos saído. O que se faz com as religiões que não podem ser exercidas no Centro quase Ecumênico? Esses atletas terão que varrer suas crenças para baixo do tapete? Fingir que não acreditam no que acreditam? Injusto!

A seu favor, o Comitê Organizador da Rio-2016 alega ter chegado a essas cinco religiões por pesquisas e dados estatísticos. Sério? Sabe que olhando não é o que parece? O Comitê ainda argumenta que não é possível agradar a todos. Tem razão. Concordamos nesse ponto. Então seria o mais justo não agradar a ninguém. É lei. Está na Constituição da República Federativa do Brasil. A liberdade de consciência e de crença e seu livre exercício são assegurados a todos. Não só para algumas religiões. Ou para as mais frequentadas estatisticamente.

Até porque, estatisticamente, a grande maioria das pessoas que frequentam os terreiros, é batizada. Casa de branco na igreja. E, de papel, é católica. Mas adora um tambor. Se não pode ser a casa de todos, que não seja de ninguém. Que todos fiquem com os mesmos privilégios. Não só alguns afortunados. Pois então que não fizesse Centro Ecumênico nenhum. A não ser que fosse verdadeiramente ecumênico. Mesmo que os organizadores percebam o grave erro que cometeram. Mesmo que voltem atrás. Não importa. Importa que as máscaras caíram e a discriminação veio à tona. Por isso é preciso que se fale, se questione e se ponha a boca no trombone.

O que vem para o bem, não prega o mal. Nem se mete com a fé alheia. Você tem a sua religião. Eu tenho a minha. Não concorda? Não aprova? Dane-se. Problema seu. Aprenda a respeitar. Independente do nome que tenha. O Deus que está em mim, saúda o Deus que está em você. Namastê. 




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