‘Aos 3 anos meu filho queria ser menina’

(BBC Brasil, 20/01/2015) A família de Danni viveu um momento traumático quando, aos 3 anos, a criança foi encontrada pela mãe com uma tesoura na mão dizendo que queria cortar o pênis. Foi neste momento que a mãe, Kerry McFadyen, passou a levar a sério a ideia de que seu filho Daniel havia nascido com o sexo oposto.
“Me lembro como ela se olhou no espelho um dia depois que cortamos seu cabelo”, comentou Kelly à jornalista da BBC Stephanie Hirst, que é transexual.
Kelly conta que sua filha estava “devastada”, porque pensava que iriam deixar seu cabelo mais longo, e não mais curto.
“Então ela começou a se vestir como menina e me perguntava constantemente: ‘Por que isso acontece comigo, mamãe? Por que não sou como você? Por que sou como meus irmãos, e não como minha irmã?'”.
Quando perguntada sobre como se sentia diante da ideia de “ter que ser um menino”, Danni não hesitou ao responder: “irritada”.
“Eu não gostava de ser um menino”, reforçou ela.
Educar a sociedade
A mãe de Danni conta que recorreu à internet para encontrar informações que pudessem ajudá-la a lidar com a filha. E diz que ficou até surpresa com a quantidade de coisas que encontrou – ela não era a única a passar por essa situação.
“Mesmo os psicólogos que nós procuramos não tinham o conhecimento para explicar isso. Então escrevi no Google ‘meu filho quer ser uma menina’ e apareceu um monte de coisas que me ajudaram bastante”, explicou Kerry, que tem outros quatro filhos, três meninos e uma menina.

 

Todos eles aceitaram muito bem a opção de Danni.
“Ela simplesmente queria ser uma menina. Nunca aceitou ser um menino”, disse a irmã de Danni.
A menina acabou sendo diagnosticada com “disforia de gênero”, descrito como “repulsa ou desconforto que uma pessoa tem a respeito de seu sexo biológico”, pela Associação Americana de Psiquiatria (APA, na sigla em inglês).
“Não tinha ideia de que isso existia”, relata a mãe. Ela ressalta que seria importante existirem mais informações para “educar a sociedade” sobre essa questão.
“Cada vez, mais e mais pessoas são diagnosticadas com disforia de gênero. No entanto, muitas delas acabam sofrendo preconceito e são incompreendidas”, segundo fontes do Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês).
O NHS oferece tratamento ou acompanhamento psicológico para crianças e jovens. Não oferece tratamento médico ou cirúrgico, porque a maioria das crianças com suspeita de disforia de gênero “não têm a condição quando alcançam a puberdade”, segundo o NHS.
Kerry resolveu comunicar aos pais e a outras crianças do colégio que sua filha era transexual.
“Tornei pública a história da minha filha para ajudar a criar consciência sobre outros filhos transgêneros que podem estar sofrendo em silêncio.”
Kerry acredita que muitos pais pensam que ela é “uma má mãe por permitir a transição de sua filha, que ainda é tão jovem.”
Ela afirma que a única coisa que quer é “ver sua filha feliz”, independente de ela decidir “um dia voltar a ser um menino”.
Entre 2014 e 2015, o número de crianças com 10 anos ou menos indicadas pelo serviço de saúde britânico para atendimento relacionado a questões de gênero quadruplicou em relação a 2009 e 2010. Do total, 47 crianças tinham cinco anos ou menos. Duas crianças tinham apenas três anos.
Além da violência externa, o estigma em torno da questão faz com que essas crianças e adolescentes estejam mais suscetíveis a problemas psicológicos. Uma pesquisa publicada em 2014 indica que 59% dos jovens transgênero sofreram com autoflagelação, um total muito superior à média geral de 9% para a faixa etária de 16 a 24 anos.

 

Terminologia de gênero, segundo o NHS*

  • Disforia de gênero: transtorno psicológico caracterizado pela angústia ou desconforto causado por uma falta de coincidência entre a identidade de gênero de uma pessoa e seu sexo biológico.
  • Transexualidade: desejo de viver e ser aceito como membro do sexo oposto, acompanhado em geral pelo desejo de ter um tratamento para que sua aparência física fique mais de acordo com sua identidade de gênero.
  • Travestismo: acontece quando uma pessoa se veste, ocasionalmente, de forma tipicamente associada ao gênero oposto por uma variedade de razões.
  • Genderqueer ou não-binário: termo geralmente usado para descrever as identidades de gênero que não são estritamente “homem” ou “mulher”.
*Fonte: Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS)

http://agenciapatriciagalvao.org.br/lgbt_/aos-3-anos-meu-filho-queria-ser-menina/

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