Rogério Ceni e o preconceito às avessas

São Paulo conquista o tricampeonato brasileiro 

Não fosse a avassaladora paixão pelo clube que a gente torce, o futebol não seria o que é para a humanidade. Isso inclui tudo o que essa relação implica, de positivo e negativo. O clubismo exagerado, por exemplo, impede muitos de reconhecer o mérito do outro, de admirar aqueles que têm feitos notáveis apenas porque vestem cores rivais. Nestes dias, é hora de deixar um pouco isso de lado para aplaudir Rogério Ceni.

É a existência de sujeitos como ele que pontua tanto a história do futebol numa perspectiva mais ampla quanto nossa história pessoal como torcedores. Não é preciso explicar os motivos dos milhões que o mitificaram ainda em atividade. São as mesmas razões dos que santificaram Marcos e endeusam Messi. São protagonistas de episódios coletivos de emoção extrema, e muito mais de felicidade que de tristeza. São eles que estão diretamente conectados aos momentos mais preciosos de nossas vidas - quando estamos de folga, no estádio, no bar ou em casa, na companhia de quem a gente ama.

Rogério têm uma legião infindável de súditos, mas colecionou também detratores, poucos públicos, a maioria velados. É um cara vaidoso, conservador. Ciente da condição de líder, sempre deu a cara para bater, arcando com as consequências disso. Em uma exposição pública tão intensa e longeva, é claro que tropeçou um bocado, com os pés, as mãos e a língua. Mas o fez em uma quantidade desprezível quando se compara com o quanto acertou. Muitas das críticas que recebeu, técnicas e comportamentais, foram absolutamente justificadas. Uma parte delas, entretanto, se deve a um preconceito às avessas, a um pensamento mesquinho que se resume basicamente ao seguinte: "Como pode um jogador de futebol querer botar banca de inteligente? Querer discutir de igual para igual com dirigentes, comentaristas, repórteres? Ponha-se no seu lugar!"

Esse pensamento rasteiro atraiu para Rogério adjetivos como "metido, arrogante", que contaminaram alguns jornalistas e uma enormidade de torcedores adversários. No momento em que se aposenta dos campos, Rogério merece a reverência do mundo do futebol - o que está acontecendo. Ele hoje interrompe a carreira nos campos absolutamente talhado a se tornar treinador. Suas entrevistas ao final dos jogos sempre foram lições de leitura tática. Mas, primeiro, seus planos são estudar, se preparar. Para ser, também como técnico, um cara diferente.

http://espn.uol.com.br/post/563902_rogerio-ceni-e-o-preconceito-as-avessas

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