“É no empreendedorismo que estão a ser criados os empregos"

 

A mudança de mentalidade já vinha antes da crise, mas Francisco Lacerda, presidente da COTEC Portugal – Associação Empresarial para a Inovação (e presidente executivo dos CTT) reconhece que o empreendedorismo saiu reforçado em Portugal com as dificuldades dos últimos anos.

Ouvimos recentemente o ministro das Finanças dizer que quer crescimento económico baseado no investimento em inovação. O que é necessário para que isso aconteça?
É necessário que haja essa vontade e essa cultura por parte das empresas e das pessoas que as lideram. É também necessário investimento. Depois, estamos a falar das condições gerais que promovam o investimento; da confiança, de acreditar no futuro e nos mercados.

Os números divulgados no mês passado pelo Eurostat sobre o investimento em R&D na Europa mostram que Portugal faz parte da segunda divisão europeia neste campeonato. Como se encurta a distância para os países da frente?
No fundo é tendo a vontade e elegendo as prioridades para isso. Portugal evoluiu muito positivamente até ao início da crise económica e desde aí tem estado mais ou menos em termos estáveis. Temos de acreditar que com a viragem do ciclo económico e com o contínuo enfoque nestas prioridades vamos voltar a progredir nesse esforço.

Vemos que as empresas portuguesas estão entre as piores da Europa, por comparação à percentagem de investimento em inovação e conhecimento que sai das universidades públicas. As empresas não ficam bem na foto…
Houve um abrandamento do investimento em Portugal, não só por parte das empresas. Mas esse abrandamento também se reflectiu na área da inovação, como em todas as outras vertentes do investimento. A partir de 2010, 2011, as quedas foram muito substanciais, está agora a retomar, mas ainda a níveis bastante inferiores. É verdade que há dados que nos põem abaixo da média europeia, mas há outros em que estamos acima, como os novos doutorados, as publicações científicas ou a inovação interna nas PME. Há que ir conjugando as várias vertentes; o investimento e a confiança no futuro por parte das empresas para que invistam e acreditem que é pela investigação e pelo conhecimento, e pela tradução desse crescimento em produtos de valor acrescentado, que devem fazer o caminho.

Em termos europeus vemos que apenas 2% do PIB é canalizado para R&D. É suficiente, tendo em conta os desafios que a Europa enfrenta a nível global?
O que seria desejável era que se investisse mais, e comparado com outras economias e outros espaços económicos, vemos que em termos globais a Europa necessita de investir mais. Mas olhando para os vários indicadores, há países europeus na liderança dos rankings internacionais de inovação. Mais uma vez há a questão do investimento; a Europa tem estado de facto numa época mais difícil, o que também explica porque é que o investimento não está a crescer mais. Contudo, ainda há pouco tempo saiu um relatório sobre a temática da inovação em Inglaterra e, se é verdade que o país está no topo em rankings internacionais, também lá se colocam questões que andamos cá a discutir: a relação entre as universidades e as empresas, como financiar a inovação, sobre como fomentar o ensino para que as pessoas estejam mais abertas para o empreendedorismo… são problemáticas semelhantes às nossas, os estágios de partida é que são um pouco diferentes.

Quais são os sectores que precisam urgentemente de modernização?
Uma das conclusões que se tira ao olhar para o que tem sido a inovação em Portugal é que é fundamental seja qual for o sector. Vemos a actividade agrícola a retomar de há uns para cá de uma forma que ninguém pensaria possível, vemos a situação muito favorável em que está o sector do calçado, percebemos que o têxtil deu saltos enormíssimos e está a competir com o mundo… Mas também vemos o país com presenças cada vez mais significativas nas tecnologias de informação (TIC), onde temos empresas de alguma dimensão e todo um mundo de start ups. Fala-se muito da vinda do Web Summit para Lisboa e é verdade que isso vai impulsionar muito o desenvolvimento de Lisboa neste sector. Mas não penso que seja a causa, é mais a consequência. Havia um ecossistema que, de repente, se gerou e se foi desenvolvendo, que faz com que os portugueses se sintam bem a desenvolver em Lisboa e que as empresas e criadores estrangeiros venham para cá. Mais do que escolher o sector A ou B, ou o cluster A ou B, fundamental é criar estas condições gerais, criar este ambiente propício e a partir daí a iniciativa fará com que as coisas floresçam.

http://www.publico.pt/economia/noticia/e-no-empreendedorismo-que-estao-a-ser-criados-os-empregos-1716911

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