Filme questiona preconceito enraizado há mais de 200 anos

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O longa-metragem Aferim!, do diretor romeno Radu Jude (vencedor do Urso de Prata de melhor diretor no Festival de Berlim), denuncia o preconceito no processo de industrialização do Leste Europeu e registra a luta por ascensão dos ciganos, além de ressuscitar o debate dos tabus sociais enraizados nos dias de hoje.
Filmado em preto e branco, a história se passa no Velho Continente, em 1835, época em que a Europa estava desorganizada, dividida em regimes feudais onde as classes desfavorecidas, principalmente no Leste do Europeu, eram designadas aos trabalhos miseráveis através de uma espécie de regime escravista. Neste contexto, o filme ilustra a busca de um xerife obcecado por dinheiro, que com seu filho sai à procura de um escravo cigano foragido. Percorrendo longas distâncias em um ambiente muito parecido com o cerrado brasileiro, constituído por poucas arvores e um horizonte seco, os personagens adentram em uma imensidão de areia e preconceito.
Durante toda trama, por meio do diálogo entre as personagens, temas preconceituosos que ecoam em nossa sociedade são expostos de maneira direta. Os cristãos exercem a função do “politicamente correto”, e um padre chega a justificar a escravidão dos ciganos diante de versículos da bíblia. A figura da mulher é resumida em sexo e trabalho. Os ciganos, sempre sujos e desleixados, vivem às margens da sociedade, lutando por sobrevivência e enfrentando forte preconceito da nobreza, se submetendo a qualquer tipo de trabalho em troca de comida e roupa. Piadas relacionadas a gênero, preconceito e machismo fazem parte do roteiro, como uma espécie de humor negro.
Durante toda a trajetória em busca do escravo foragido, pai e filho conhecem diversas culturas diferentes. O menino chega a questionar em alguns momentos da trama os comportamentos preconceituosos e bárbaros de seu pai, porém ele acaba se deixando levar pelos pensamentos conservadores do pai.
O que mais chama atenção é que nossa sociedade continua extremamente preconceituosa e atrasada. Os temas que eram considerados tabus, ou preconceituosos em 1835, prevalecem nos dias de hoje. A ojeriza contra os ciganos pode ser comparada à exclusão social de classes desfavorecidas, à luta dos imigrantes refugiados por condições mínimas de vida, ao genocídio negro e à homofobia. O machismo está enraizado na sociedade, as lutas feministas pela autonomia da mulher crescem gradativamente ao redor do globo, porém muitos homens insistem na ideia de desmerecer o valor e a capacidade da figura feminina.
É preocupante que, ainda nos dias de hoje, valores preconceituosos continuem sendo reflexo dos que existiam 200 anos atrás. Uma opinião cada vez mais conservadora ganha espaço na política e se reflete em âmbito internacional. Tomando o Brasil como exemplo, bancadas que representam ideias ultrapassadas e conservadoras crescem no Congresso. A violência contra os mais pobres aumenta, o genocídio negro nas periferias é mascarado pela mídia, enquanto a aprovação da redução da maioridade penal é comemorada por correntes conservadoras.
Sem dúvida nenhuma, Aferim! é uma das grandes surpresas da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Diante de um humor negro e de críticas diretas ao comportamento do ser humano, o filme questiona o caminho que estamos traçando na humanidade e provoca uma reflexão sobre os valores e ações que defendemos.  
http://brasileiros.com.br/2015/10/filme-questiona-preconceito-enraizado-ha-mais-de-200-anos/

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