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Para entender Foucault

Para entender Foucault

Por Marcos César Alvarez e Eduardo Altheman Camargo Santos
“Existem momentos na vida em que a questão de saber se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou refletir”. Esta frase, escrita pelo filósofo francês Michel Foucault em 1984 – ano de sua morte – no segundo volume da trilogia História da Sexualidade, sintetiza a experiência intelectual desse que foi um dos maiores filósofos do século XX. Controverso e polêmico, Foucault buscou constantemente deslocar o olhar que mira as questões tidas como canônicas e torcê-las, apontando para novas interpretações e análises de fenômenos tomados como naturais e como imutáveis.
 
 
Nos diversos temas que perpassam sua obra, seja na análise da loucura, das Ciências Humanas, da sexualidade, da prisão ou – como indica seu mais recente campo de estudos – na análise da governamentalidade e do neoliberalismo, Foucault desbravou diversas possibilidades teóricas. Seu fio condutor buscava um saber que dissecasse o presente histórico, perpassado por relações de poder e por configurações de saberes correspondentes.
 
 
Nesse sentido, Foucault pensava suas análises como “caixas de ferramentas”, verdadeiros instrumentos práticos e meios concretos para se pensar o presente, virá-lo do avesso, criticá-lo e buscar novos caminhos de compreensão e experiência para além daqueles impostos como limites pelo nosso tempo. A seguir, falaremos brevemente sobre os principais temas presentes em sua obra. 
 
Loucura, a verdade da razão
 
A primeira vereda pela qual se aventurou Foucault é o estudo do fenômeno que foi convencionalmente classificado como “loucura”. Publicado em 1961, História da Loucura é o primeiro livro do francês que o coloca no mapa da Filosofia na segunda metade do século passado. Na obra, baseada em extensa pesquisa documental, aponta como a loucura foi recortada como objeto de conhecimento em diversas épocas e instituições sociais.
 
 
Em tal trilha, ele não recai em um percurso linear e evolucionista, segundo o qual todas as formas de conhecimento anteriores à constituição da Psiquiatria seriam formas pré-científicas e, consequentemente, irracionais ou incapazes de compreender o fenômeno da loucura.
 
 
Tampouco se refugia no relativismo, segundo o qual a loucura não existiria. O que ele afirma é que, dependendo de seu contexto social, moral e imaginário, distintos momentos históricos tematizam e vivenciam a experiência da loucura e da desrazão de maneiras específicas.
 
 
De acordo com Foucault, o rompimento que levou à instituição da Psiquiatria é o do silenciamento e apagamento de múltiplas vozes e de possibilidades de apreensão do fenômeno da loucura, estabelecendo-a como objeto privilegiado e exclusivo do saber psiquiátrico. Tal rompimento demonstra uma série de afinidades com os processos que se desenrolavam na sociedade capitalista nascente, que andava lado a lado com o aparecimento de instituições de reclusão e de internamento, como o manicômio, o hospital e a prisão.
 
 
Nessas instituições, e por meio desses saberes, delimitavam-se os espaços apropriados para cada indivíduo, efetuando-se uma triagem entre normal/anormal, razão/desrazão, são/louco, entre outros. Ao mesmo tempo, um campo de saber específico volta-se para tais instituições, verdadeiros laboratórios de estudos nos quais novas relações entre sujeito e objeto nascem.


As instituições de sequestro
 
A obra Vigiar e Punir, de 1975, é o maior sucesso de Foucault e o que causou maior impacto na Sociologia, especialmente na interessada em compreender as relações de poder, as prisões, bem como a lógica e as práticas da punição. Novamente recusando-se a escrever uma história evolutiva e progressiva dos eventos, estuda a mutação nas práticas penais ocorrida na Europa Ocidental entre os séculos XVIII e XIX. 
 
 
Em outras palavras, o filósofo busca compreender como se passou da tortura e do suplício como formas disseminadas de punição à moderna prisão como forma punitiva por excelência. Sua explicação é tão estarrecedora quanto decisiva: não se tratou de um movimento contínuo de humanização das penas e da sociedade como um todo, mas sim de uma transformação profunda relacionada à proveniência do poder disciplinar.
 
 
Este se refere a uma série de saberes, lógicas, práticas e instituições relativamente dispersas – como o presídio, o hospital, a fábrica e a escola – mas animadas por uma lógica comum: vigiar, controlar, dispor e classificar; atribuir a cada indivíduo um espaço e uma função; controlar o tempo e cada ínfimo movimento. 
 
 
O objetivo é pulverizar pela sociedade o princípio do panóptico de Bentham, segundo o qual uma torre central permitiria ao guarda vigiar cada uma das celas sem ser, em compensação, visto por nenhum dos detentos, instituindo um poder automático, incessante e inescapável.
 
 
Esse arquipélago disciplinar aparece juntamente com o capitalismo, relacionando-se intimamente com as novas problemáticas e exigências de controle dos tempos, dos movimentos, da circulação, da produção, dos corpos e dos capitais. Em épocas de explosão demográfica, de nascimento das grandes cidades, de enormes concentrações populacionais e migrações do campo para as cidades, ele foi uma tecnologia de poder que domou as multidões perigosas e revoltas populares e, ao mesmo tempo, otimizou suas forças produtivas, criando, assim, “sujeitos assujeitados”, adestrados politicamente e ativos economicamente.
 
 
A experiência da sexualidade
 
 
Planejada como obra de grande alcance em seis volumes, História da Sexualidade é mais um exemplo de como Foucault, polêmica e argutamente, busca outra visão a respeito do fenômeno da sexualidade e nos obriga a questionar concepções que prevalecem tanto nas Ciências Sociais tradicionais quanto no senso comum. 
 
 
No primeiro volume da obra em questão, cujo subtítulo é A vontade de saber, publicado em 1976, o autor questiona a assim chamada “hipótese repressiva” em torno da sexualidade. Em outras palavras, ele indaga a veracidade por trás da afirmação comumente aceita de que seríamos reprimidos quanto à nossa sexualidade. Ao contrário, mostra Foucault, desde o século XVIII vemos uma enorme proliferação dos discursos acerca da sexualidade: médicos, pedagogos, juristas, psiquiatras, psicanalistas, padres, todos buscam incessantemente extrair a confissão a respeito da sexualidade de cada indivíduo.
 
 
A explosão discursiva dos séculos XVIII e XIX apresenta duas características centrais: em primeiro lugar, a monogamia heterossexual deixa de estar no palco central, não sendo exigida e descrita o tempo todo e, em segundo, todas as figuras secundárias e periféricas de outrora, como a figura do perverso, da criança onanista, da mulher histérica, entre outras, avançam para tomar a palavra e confessarem o que são. São fomentadas inúmeras instâncias de observação e de incitação, de questionário, consultórios, clínicas, divãs, entre outros, que, ao mesmo tempo, trazem consigo o prazer, de um lado, de apalpar, questionar, desentranhar e, de outro, de ser apalpado, de confessar e de tentar escapar ao poder: inúmeras espirais de poder e de prazer.
 
 
Nesse sentido, o crescimento e a proliferação das perversões são produto direto e real de um tipo de poder sobre os corpos e suas sexualidades. Ao mesmo tempo produto e instrumento, efeito e vetor desse poder, as perversões e o poder se entrelaçam e se ramificam, se apoiam e se relacionam 
 
 
Assim como na obra sobre as prisões publicada um ano antes, Foucault busca aqui entender o saber formado em torno do sexo em termos do poder. Mas, como entender o poder? Certamente, não apenas como modo de sujeição de cidadãos ao Estado, ou como violência que se dá na forma de regra, nem mesmo somente como poder de uma classe ou grupo sobre outro. Trata-se de um poder que assume uma forma capilarizada.
 
 
Esse poder que busca o tempo todo regular e gerir a vida das pessoas, Foucault nomeia “biopoder”, uma tecnologia de governo da vida que se desenvolveu a partir de duas táticas distintas: primeiramente, as disciplinas, exploradas em Vigiar e Punir, e depois, a partir de meados do século XVIII, uma biopolítica que mira não mais o indivíduo, mas a população como um todo.

http://www.cartanaescola.com.br/single/show/562

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