Carla Liane: Massacre da juventude

"Se não formos capazes de traçar caminhos alternativos priorizando a participação social, garantia de direitos, efetividade de nossas leis, reconhecendo e respeitando as diferenças, então nos declaremos vencidos pelas armas e pelo derramamento de san


Há algumas semanas atrás assistimos de cá o apelo da presidenta da República para que as autoridades da Indonésia poupassem as vidas de dois brasileiros presos no país asiático e condenados à morte por tráfico de drogas. Disse ela, ainda, que o ordenamento jurídico brasileiro não comporta a pena de morte, e que seu "enfático apelo pessoal" expressava o sentimento de uma mãe bem como de toda a sociedade brasileira.

Semanas depois treze jovens negros foram executados em Salvador-Ba, na Vila Moisés situada na Estrada das Barreias, no bairro do Cabula logo após a polícia receber a informação de que um grupo de trinta homens planejava roubar um banco na região, desencadeando um confronto armado, conforme versão noticiada pela imprensa. 

É muito difícil como cientista social calar diante de tais fatos. Voltamos então a pensar sobre a efetividade do ordenamento jurídico brasileiro e sobre o sentido da justiça em uma sociedade democrática? A justiça para quem, diante da “invisibilidade das desigualdades no Brasil? Aqui quem tem o direito de defesa? Estamos declarando o fim do Estado de Direitos e pregando o olho por olho e o dente por dente? Se assim for, abriu-se a temporada do salve-se quem puder, em que Hobbes diria que “o homem é o lobo do homem”!!! Ou talvez, estamos vivendo o tempo em que como diria Maquiavel, “os fins justificam os meios”. Caracterizamos como “Civilização ou Barbárie”?

É até compreensível a máxima Weberiana de que o Estado possui o monopólio da violência, expressa pelo uso legitimo da força física dentro de um determinado território, visando, sobretudo, a manutenção da coesão social, da ordem e, antes de mais nada, em nome da justiça. 

A quem pedir clemência, em nome das mães e das comunidades negras das periferias da cidade que convivem com o diário derramamento de sangue dos seus? Como justificar a naturalização de tal desintegração da ordem social? Continuaremos reproduzindo da forma mais perversa e desigual a luta de classes associada ao preconceito e à discriminação racial? 

Não podemos ser superficiais nas nossas análises nos atendo apenas aos fins, esquecendo os meios e, sobretudo, esquecendo as raízes de tais desigualdades. Precisamos tomar as coisas pela raiz do problema. É preciso ir à raiz do problema. 

A temática da violência em suas múltiplas dimensões constitui uma questão crucial que desafia as políticas de desenvolvimento social no Brasil contemporâneo. Presencia-se, atualmente, o expressivo número de jovens em situação de pobreza e desfiliação social, sem oportunidades de trabalho, envolvidos no submundo de uma sociabilidade precária, configurando um quadro que coloca a juventude negra em uma posição de vulnerabilidade e de falta de perspectivas futuras. 

Como dizia Arendt, a violência é uma forma de supressão da palavra, o que leva à negação da condição humana. Neste sentido, o enfrentamento da violência depende do resgate do direito à palavra, da expressão das necessidades e reivindicações dos sujeitos, do fomento de espaços coletivos de discussão.

Não podemos calar diante desse quadro, a violência será sempre a pior solução. Ela reflete um ato de brutalidade sustentada na opressão, intimidação, medo e terror. Graças aos movimentos sociais avançamos e conquistamos o Estado democrático (apesar das limitações desse estado para emancipação humana), não podemos retroceder. Para reverter esse cenário de extermínio da juventude negra das nossas periferias, o poder público deve entrar nas comunidades oferecendo-lhes ao invés de balas de fogo, oportunidades, reconhecendo as diferentes subjetividades e necessariamente caminhando junto com a juventude multifacetada na direção da inclusão social e do bem comum, fortalecendo o protagonismo desses atores, criando espaços de inserção positiva, socialmente referenciada. 

Se não formos capazes de traçar caminhos alternativos priorizando a participação social, garantia de direitos, efetividade de nossas leis, reconhecendo e respeitando as diferenças, então nos declaremos vencidos pelas armas e pelo derramamento de sangue, onde o alvo é sempre o mesmo. Afinal, como diz Elza Soares, a carne mais barata do mercado é a carne negra!

*Carla Liane N. dos Santos é mulher negra, nascida e criada no bairro do Uruguai, na periferia de Salvador. É doutora em Sociologia pela Ufba e pesquisadora da Uneb

http://www.vermelho.org.br/noticia/258747-8

Comentários

#Fale conosco

Nome

E-mail *

Mensagem *