A Filosofia no cotidiano corporativo


Muitas pessoas desprezam o estudo da Filosofia, por acreditar que é um assunto muito abstrato, e que o conhecimento que ela proporciona não tem muita aplicação prática. Eu confesso a você, caro leitor, que penso exatamente ao contrário disso. Sem os conceitos orientadores da tradição filosófica e do conhecimento que foi sendo refinado por milênios, estaríamos como que flutuando no espaço vazio, totalmente desamparado e sem parâmetros para tomar decisões práticas em nossas vidas.
Quer você queira ou não, as coisas acontecem em grande parte pelas orientações de um mecanismo criado pela cultura, o qual se chamou de classificação. A classificação em termos muito simplista é o que fazemos quanto elegemos alguma coisa como importante e deixamos outra de lado. Em outras palavras, fazemos escolha – e escolher é classificar.
Mas por que escolhemos uma coisa e não outra? Em termos absolutos, geralmente procuramos optar pelas coisas que são boas e eliminamos as coisas que são ruins – é o principio natural da vida, e a forma dela se manter.
Porém, na vida real, fora das torres da Filosofia, em muito poucas oportunidades temos claramente definido o que é bom e o que é ruim. Viver é mais complicado do que filosofar, já dizia um ditado qualquer.
Classificar, além de ser a atividade mais importante da Ciência da Informação e da Filosofia, é colocar valor, hierarquizar, tomar algo por mais importante que o outro, ordenar as coisas e priorizar. Em outras palavras, usamos critério para organizar os acontecimentos ao nosso redor. E este critério só é aplicado quando acreditamos nele como sendo verdadeiro, portanto bom.
Se prestar bastante atenção, nesse instante eu acabo de fazer uma escolha, quando uso a expressão “organizar os acontecimentos ao nosso redor”, ao invés da expressão “organizar as coisas ao nosso redor”, de maneira a adotar um ponto de vista próprio, não exatamente o mesmo que outra pessoa poderia adotar.
Quando escolho o termo acontecimento e deixo de lado o termo coisa, eu estou optando por uma tradição filosófica fortemente influenciada pelas descobertas dos físicos e químicos do século passado. Especialmente aqueles que descobriram que no átomo, considerado por séculos como a menor porção da matéria, existiam partículas ainda menos. E, ao entrar mais fundo ainda na constituição da matéria, descobriram que estas partículas se resumiam a campos de força e deslocamento de energia.
Diante deste cenário apocalíptico que se formou ao descobrir que o que vemos não é tão sólido assim, não restou pedra sobre pedra. E as torres filosóficas foram desmoronando uma a uma. O golpe derradeiro foi desferido por Friedrich Nietzsche quando afirmou que  “Deus estava morto”!
Nossa sorte é que o pensamento é como a Fênix, sempre renasce das cinzas. E se agora não tínhamos mais como nos agarrar a imagem de uma entidade transcendente, ou nas coisas sólidas ao nosso redor, ao menos poderíamos atualizar as ideias das Formas Perfeitas de Platão e pensar as coisas em termos do divino abitando o mundo, sendo ele a própria natureza e substancia primordial de tudo.  Não algo fora dela, mas sendo ela própria.
Pode parecer estanho, e o meu caro leitor se perguntar nesse momento. Sim e dai o que eu tenho a ver com isso? Meu negócio é tecnologia, eu mantenho sistemas funcionando, eu crio rotinas e gero relatórios. Ou, coordeno equipes, eu gerencio uma empresa, e ela deve dar lucro. As favas com esse bla, bla, bla todo.  
Sim, eu concordo que é muito abrangente esse papo todo, mas saber de onde vêm as ideias não faz mal a ninguém - é como caldo de galinha. Bem, o que eu estou mostrando é que dessa bagunça toda, emergiu com mais força do que nunca a noção dos sistemas. Sim, meu caro Técnico, meu nobre Gestor: fazer sistemas, gerenciar sistemas é o seu negócio, então entender as ideias de Espinoza e outros Neoplatônicos pode ajudar bastante para ampliar os horizontes e modificar sua atitude prática.
É bobagem falar que a Teoria Sistêmica começou na metade do século passado. Ela começou muito antes, ou melhor, acredito que ela tenha sido a primeira de todas, e o que se tentou fazer o tempo todo foi sufocar ela.
Em poucas palavras, os Sistêmicos partem do seguinte princípio: Deus é substancia primária, que é o próprio mundo. De onde todos os corpos derivam como extensão desta substância. E os corpos derivados desta substância, por assim dizer, só existem enquanto relação com outros corpos. Portanto, seu computador, sua empresa seu clientes já não são algo isolado, mas subsistemas que devem manter constantes relações com outros sistemas para sobreviverem, e, isso é bom, desejável e verdadeiro.
Você pode pensar, mas que bobagem tudo isso. Pessoas são pessoas, computadores são computadores, cadeira é cadeira. O que uma coisa teria a ver com a outra? Este maluco falou até que Deu não existe, e agora vem me dizer que pessoa e cadeira é a mesma coisa!  
Bem, imagine seu computador travar, ou o telefone ficar mudo na hora que um cliente estiver precisando de informações vitais naquele instante. Não é antes nem depois, é naquele instante que ele precisa das informações, aquela que estão no seu computador que travou e só você poderia fornecer. Dai você entenderá que tudo esta relacionado a tudo. Para o cliente que ficou sem a informação não importa se foi o computador que travou, se você não fez o seu trabalho direito ou se Deus quis assim. O que importa para o cliente é que ele ficou sem a informação, e isso é fato.
Uma das vantagens de pensar as coisas sob esta perspectiva é que a evolução dos sistemas nunca ocorre de forma isolada. As coisas mudam constantemente, mesmo que você não mude o mundo a sua volta muda. Regras que valiam ontem, hoje ou amanhã podem não valer mais. Portanto mais do que segurança, o foco de toda a atitude acertada é se concentra na contingência. É mais ou menos como aquela estorinha “Não espere ficar com sede para começar a cavar um poço”, ou seja, quando o problema aparecer já é tarde.
É por isso que eu defendo uma postura pragmática, coisa que vou explicar numa outra oportunidade. Porque o melhor que temos a fazer neste cenário estonteante é procurar o máximo de clareza ao tomar uma decisão. Por que é do impacto que ela causa ao seu redor que o futuro depende.

http://www.baguete.com.br/colunas/liandro-j-bulegon/13/02/2015/a-filosofia-no-cotidiano-corporativo

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