Sexualidade e política



Antônio Guerreiro

Na semana passada, questionei aqui a decisão da Associação ILGA Portugal de atribuir um dos prémios Arco-íris 2014 a um português que ocupa, em Londres, um posto de liderança do banco HSBC, por este ter declarado publicamente a sua homossexualidade. Seja-me permitido retomar e desenvolver o assunto. A questão que colocava era, em primeiro lugar, de ordem política, formulando uma crítica ao que me parece redundar num ritual muito estrelado, mas vazio. E não é pelo facto de ter erigido o banqueiro António Simões como ponto de partida de uma análise mais geral — devedora de uma “etologia” empírica e não de uma sociologia — que esta ficou comprometida com o modelo da luta de classes. Não era da condição social do banqueiro e das representações da alta finança que eu queria deduzir o problema político fundamental. 

A questão é outra, por mais que não esteja desligada dessa: nomear a figura do banqueiro como exemplo significa assumir de maneira hiperbólica o ideal da mais completa integração da homossexualidade na normalidade das relações sociais — a normalidade destituída de qualquer elemento crítico e, por isso, desembocando sempre numa cultura frívola, da indiferenciação e da massa. Este hiperconformismo (e vou insistir num exemplo que já evoquei em tempos, noutro artigo sobre este tema) assemelha-se ao daquele judeu assimilado de que fala Hannah Arendt, o senhor Cohen, que foi sucessivamente alemão a 150%, vienense a 150% e francês também a 150%. E é aqui, em oposição a este hiperconformismo, que me parece importante a ideia de Foucault (a que implicitamente fiz referência na semana passada) da sexualidade como uma questão de “modo de vida”, de criação de cultura e estabelecimento de relações diferentes das que nos são propostas. Daí, a sua célebre frase: “Temos de aspirar a tornarmo-nos homossexuais e não a reconhecer que o somos.” As cerimónias e opções em que a maior parte do activismo gay e lésbico se compraz estão fixadas nas convenções da identidade e do reconhecimento. 

Daí a glorificação do coming out, como se a liberdade de não declarar publicamente não fosse tão legítima e eventualmente tão portadora de um potencial crítico como a de declarar. É evidente que é importante lutar para que todos os indivíduos tenham a possibilidade e o direito de viver a sua sexualidade sem os constrangimentos impostos pela normatividade e pelo preconceito que excluem e reprimem. Quanto a isso, sabemos bem que insistir na questão da identidade foi muito útil politicamente. Mas ela é muito limitada, corresponde a um programa que se cristaliza em códigos e impede a invenção, isto é, as modalizações que um modo de vida pressupõe, tal como Foucault o entende. Fazer com que a homossexualidade não seja essa coisa inerte e despolitizada, à medida das aspirações de todos os senhores 

Cohen e de todos os senhores Bloom deste mundo, não corresponde a integrá-la na luta política nos termos em que isso foi feito há quase meio século; corresponde não à reivindicação encarniçada de uma identidade com a sua força de atracção mimética e, por conseguinte, com o seu poder de homologação, mas a um devir que é próprio das forças criadoras, condição indispensável a uma vida cultural que é também criação de modos de existência e fuga às relações que nos são propostas por uma máquina normativa. Ora, o discurso e as escolhas de instituições como a ILGA não só nada produzem de relevante no plano político e cultural como se conformaram a um kitschideológico cujo brilho resplandece com mais força nos momento de gala.

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