Conflitos e hábitos entre os pais e filhos têm raiz nos mitos familiares

A repetição de um comportamento autoritário, mesmo de violência, ou a manutenção de hábitos normais, como o sentar-se ‘religiosamente’ aos domingos à mesa para o almoço em família com o patriarca na ponta, pode ter relação com o antepassado em repetição de comportamentos que a maioria das pessoas não sabe identificar ou não se deu conta da origem. Assim, filhos ‘imitam’ pais, que repetem os avós, que são uma espécie de ‘sequência comportamental’ dos bisavós. 
 
Da mesma forma, crenças e verdades invisíveis podem ser explicadas pela leitura das vivências das gerações das famílias, ação que muito poucos realizam em relação ao passado. A maioria sequer tem os nomes de sua árvore genealógica além dos avós.    
 
Em outro horizonte, a ocorrência de depressão, a angustiante ‘mania’ de reforçar - mesmo aparentemente sem saber identificar de onde isso veio - que “esta é minha sina” ou “não consigo me sentir ou ser feliz” pode ter origem nessa mesma correlação que o livro “Desvendando Mitos”, da psicoterapeuta Marilene Krom, estuda em relação aos mitos familiares ou individuais. 
 
Mas para mergulhar no universo de Krom é preciso ter uma dose de compreensão sobre questões humanísticas e antropológicas. Cuidado, ela define “mito” como o sentido que atribuímos à vida e aos relacionamentos.  
 
A leitura dessas vivências, assim como a identificação de estigmas que você não conhece lá de seus tetravós permite, segundo seus estudos, a compreensão de comportamentos ou “verdades” nocivas ou positivas para sua vida. 
 
É o que discute e demonstra a doutora e mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, a psicoterapeuta Marilene Krom em seu livro “Desvendando mitos”, lançado na última semana em Bauru. A tese de Krom defende o uso de uma leitura evolutiva que permite identificar repetições de valores e comportamentos.

 
O livro é um mergulho psicoterapêutico sobre conteúdos que não são verbalizados no que ela chama de “mitos familiares” e “mitos individuais”. Mas essas informações fazem parte de nossa vida interna familiar, aponta. Ela propõe uma viagem sobre nossos antepassados para a identificação do que “não foi dito”, das lealdades invisíveis, os segredos e os conflitos.
 
Marilene Krom lembra que nossa memória pode acessar até três gerações. Assim, fazer a “leitura” dos antepassados gera um conjunto de informações que pode explicar, ou identificar, profecias, estigmas, os “guardiões” que influenciam de forma incisiva nossas vidas.  É evidente que esses modelos de comportamento familiar ou individual ainda estão submetidos à influência do presente, a forma como cada um foi criado,  ambiente e valores do seu tempo.
 
Mas a abordagem terapêutica discutida no livro sugere a negação ou afirmação de alguns esses comportamentos ou “verdades”. E para que serve a “investigação” sobre essas figuras míticas de nossas gerações anteriores? “Para explicar, ou diagnosticar repetições e, a partir dessa varredura, aplicar rituais terapêuticos para esconjurar o que lhe faz mal”, comenta 
 
Livro fala de ‘lealdades invisíveis’
 
Marilene Krom trata de significados que nem sempre são revelados ou identificáveis, como o que ela chama no livro “Desvendando mitos” de lealdades invisíveis na família. É algo semelhante a um livro antigo de créditos e débitos familiares. Ou seja, todas as pessoas que nascem ou entram na família participam desta rede de expectativas de comportamento. E esses comportamentos são cumpridos pelas gerações.
Mas entre os conteúdos também estão conflitos que também podem ser repetidos entre casais. “No consultório identificamos uma série de conflitos pessoais ou de comportamentos que são repetidos entre pais e filhos e famílias de origem”, afirma. 
 
Não há determinismo nos casos. “As pessoas estão sempre livres e libertas para rejeitarem comportamentos ou sequer assimilar essas repetições. Mas a leitura dos mitos familiares revela essas relações, ou as identifica”, conta. 
 
Krom exemplifica como as lealdades invisíveis podem se confirmar. “Na história familiar encontramos poderosas pessoas que atuam como figuras míticas que demarcam caminhos a serem seguidos e suas figuras se perpetuam através das gerações. Um avô imigrante que chegou sem nada e conseguiu cuidar da família e adquirir bens explica essa relação de repetição. Uma avó que em precárias condições de vida cria e educa os filhos gera uma espécie de guia para os passos da família e ajudam na superação de situações difíceis.”
 
Os mitos familiares também contam com guardiões de comportamentos. “Identitficamos na filha que, após a mãe morrer, continua reunindo os irmãos e preserva, mesmo sem fazer relação com o fato pretérito, a mitologia da união”.
 
Retratos de vocação
 
A família Pires “coleciona” em suas gerações personagens ligados à vocação em jornalismo, desenho e prazer pela música. O memorialista e editor do Bauru Ilustrado, Luciano Dias Pires, jornalista tal qual o pai, conta que o desenho, uma de suas habilidades, também era dom de outros familiares. Além do pai, João Batista Dias Pires, o irmão de Luciano, José Jack Pires, enveredou pela fotografia profissional, ligação que se “repetiu” com o filho de Luciano, Luciano Pires, chargista dos bons e também jornalista. A família também tem, entre os primos, o genial contador de causos caipiras e radialista Cornélio Pires, assim como o jornalista Herculano Pires, que foi chefe de imprensa no escritório de Jânio Quadros, e ainda, Ariovaldo Pires, também do rádio. A neta de Luciano, Luciana, é cantora profissional.     
 
Enraizado
 
O trabalho da psicoterapeuta avalia como a formação e repetição dos conflitos se “perpetuam” através das gerações. Assim, a participação dos mitos familiares ou individuais podem também ser nocivos ou desorganizadores e favorecer o estabelecimento de estigmas e o cumprimento de profecias nas intergerações. “Em 20 anos de pesquisa e de atuação com casos clínicos eu sugiro um método preventivo e terapêutico no resgate dos mitos, o que permite que as pessoas reconstruam suas histórias e redefinam o seu lugar no tempo”.
 
O processo terapêutico atua para buscar o chamado “não dito nas famílias”. Na visão de Krom, a influência ou não dos mitos familiares ou individuais sobre nossas vidas também leva em conta nossas crenças e resistências frente ao cotidiano, à forma de vida e em como enfrentamos esses processos. “Estas forças podem ser encontradas nas expectativas que acalentamos e que se encontram enraizadas em nosso psiquismo, que têm sua fonte no sentido que adquire em nossa vida e nos valores que atribuímos às coisas”, acrescenta.
 
Modelos de família
 
Conforme Marilene Krom, os modelos de família e mitos repetem nas relações de vida questões como a violência, drogadição, depressão. Ela conta que em atendimentos de consultório e estudos, em 20 anos de trabalho, verificou que padrões de violência se repetem através das gerações.  “Encontramos pacientes mostrando outras faces para suas repetições de comportamento. Mas eram repetições de violência física, sexual ou psicológica”, afirma.  Outras questões também “reaparecem” no histórico das famílias, conta. “A depressão, além das outras causas, pode estar relacionada ao sentido de infelicidade e do poder que se mostra comum em famílias de abusadores e vítimas. As pessoas se sentem estigmatizadas com estes rótulos e têm dificuldade para escapar das profecias”, elenca. Para lidar com os mitos familiares e individuais em consultório, Marilene elaborou uma maneira de trabalhar esses conteúdos, os rituais terapêuticos. “Isso envolve desde o historiar até compilar as histórias dos familiares e verificar seus recursos e dificuldades, suas lutas e batalhas. É um processo para identificar estes mitos”, diz. Para tanto, ela desenvolveu um gráfico, o ciclograma que permite visualizar sete famílias através de três gerações. Aliado ao ritual terapêutico, Marilene Krom aplica rituais curativos para lidar com os conteúdos que precisam ser “esconjurados, aquilo que se quer deixar para trás”. 
 
O que é
 
- Mito: A pesquisa de Marilene Krom trata o mito como o sentido que atribuímos à vida e aos relacionamentos. Ele define como organizamos nossa vida e os valores que atribuímos às coisas.
- Mito familiar: é o conteúdo mais abrangente presente na família, que pode envolver todos os outros, organizá-los e direcioná-los. É ele que alimenta a vida familiar e transcende gerações. Os mais comuns citados pela autora são o mito da etnia, da união, da religião, da autoridade, da conquista do sucesso, da autoridade, da sobrevivência, entre outros. 
- Mito construtivo e nocivo: Os mitos podem ser diferenciados. Não existe um tipo único na espinha dorsal da família. Os nocivos são aqueles que mostram características comuns; as pessoas se sentem fadadas a determinado tipo de comportamento ou adoecimento, não conseguem fugir de estigmas como “somos loucos”.
- Leitura evolutiva: É uma leitura construída para permitir identificar e compreender os conteúdos que fazem parte da vida interna familiar. É evolutiva por acompanhar a vida das famílias através das gerações. 

http://www.jcnet.com.br/Geral/2014/10/conflitos-e-habitos-entre-os-pais-e-filhos-tem-raiz-nos-mitos-familiares.html

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