“contra qualquer tipo de preconceito”

Com esse aviso, seu slogan de campanha, a primeira travesti eleita em Pernambuco tomou posse como vereadora de Palmares no dia 1º de janeiro

Paulo Roberto Gonçalves de Freitas, 35 anos, entrou numa disputa com 173 pessoas por uma das 14 vagas de vereador de Palmares, na Zona da Mata Sul, cidade de 60 mil habitantes cuja economia ainda orbita em torno da cana-de-açúcar. Conseguiu se eleger com 374 votos sem gastar um centavo. A plataforma de campanha, modesta até nas promessas, tinha como carro-chefe a compra de uma ambulância para levar pacientes pobres aos hospitais. Carregou consigo o trunfo da “novidade” política, mesmo convivendo com ela há quase 20 anos, quando virou Paulete, a primeira travesti a vencer uma eleição em Pernambuco.
Aos 16 anos, pouco depois de abandonar as jornadas massacrantes do corte da cana, resolveu assumir publicamente uma identidade trancafiada, segundo conta, pelo machismo da região. Deixou os cabelos compridos e colocou brincos, o suficiente para ser rifada do novo emprego como carregadora de compras na feira. Sem escolha, foi rebatizada por moradores com a corruptela jocosa do próprio nome de registro. “Uma coisa é você encontrar alguém como eu lá fora. A partir de um momento que você tem dentro de casa, vira outra coisa. Foi um choque para minha família”.
Com as portas do mercado formal de trabalho fechadas, buscou refúgio em casas de família, onde diz ter sido costumeiramente humilhada por patrões. “A travesti é como se fosse uma pessoa inválida para a sociedade porque não consegue emprego. Ou se prostitui ou trabalha como cabeleireiro e com vendas”.
Foi no comércio de cosméticos que descobriu as brechas de que precisava. Passou os últimos 12 anos trabalhando com venda de porta em porta, quando virou a cidade pelo avesso atrás de clientes. Entrava nas casas pedindo licença, saía com mais amigos e uma renda mensal entre R$ 600 e R$ 700. Como fazer as próprias sobrancelhas nunca foi problema, aproveitou para cavar bicos como esteticista. “Sou uma pessoa respeitadora. Sei entrar e sair dos cantos. Isso contou muito”.
Graças aos cremes e desodorantes vendidos, deixou de percorrer as ruas de Palmares a pé. Constituiu há alguns meses o seu único patrimônio: uma moto 50 cilindradas, adquirida num consórcio por R$ 8 mil em 44 parcelas, quatro delas atrasadas por falta de recursos. Não sabia como quitar a dívida até receber um convite inesperado do Partido Humanista da Solidariedade (PHS) para entrar na campanha para a Câmara municipal.
Recebeu 75 mil “santinhos” da sigla, além de outros 10 mil que ganhou de um amigo para botar o bloco na rua com a foto onde aparece com maquiagem discreta e uma mensagem anti-homofóbica: “Vereadora Paulete: Sou contra qualquer tipo de preconceito”.
O resultado das urnas, além de um mandato eletivo e da inserção de um representante de uma minoria no poder — estima-se que Palmares tenha 25 travestis — , vai injetar um salário líquido mensal de R$ 5,2 mil em sua conta corrente a partir de 2013. O suficiente para quitar a moto no primeiro mês de um mandato que, antes mesmo de começar, já tem um imbróglio polêmico a ser debatido. Pelo regimento da Câmara, só poderá ser chamada pelo nome de batismo durante as audiências e sessões plenárias. “Eu sei dividir as coisas. Infelizmente, queira ou não, ainda sou Paulo Roberto”. Algo que não a incomoda tanto quanto a obrigatoriedade do uso do terno e gravata. “Isso não será fácil. Nunca me vi de gravata, mas é uma regra que vou ter que cumprir”.
-“Paulete, bonita como sempre”
-“Obrigada. São seus olhos”.
 
Odeildo Bertoldo (PPL), conhecido como Dedéu, é o presidente da Câmara Municipal de Palmares e vereador reeleito. É dele o elogio acima, que Paulete agradece em tom tímido e desconfiado. A futura parlamentar foi chamada para uma reunião numa casa que funciona como anexo da Câmara: o assunto seria a reeleição de Odeildo para a cadeira mais cobiçada do Legislativo municipal.
Paulete liga antes para avisá-lo da presença da reportagem da Aurora e pedir permissão para que a reunião seja registrada pela equipe. Simpático, Dedéu nos recebe na entrada da sede provisória da Câmara, oferece um suco e desconversa quando o assunto é o tema do encontro. Diz que não almeja continuar no cargo e pretende apenas tirar dúvidas dos novatos sobre as regras da Casa — dos cinco parlamentares presentes, apenas dois eram de primeira viagem. Sempre cordial, se mantém irredutível e não permite a presença da equipe na sabatina. Nega o pedido sorrindo, mas puxa papo enquanto a reunião não começa. “Hoje em dia, infelizmente, uma eleição para vereador se conquista na compra de voto. Mas eu vou ser sincero: não faço isso”, diz o presidente.
A reunião acaba e o grupo de parlamentares reforça a tese de Bertoldo, enquanto Paulete acompanha calada. Questionada sobre a inclusão de uma travesti na bancada feminina, a vereadora Luciana Miranda (PT), uma proprietária de engenhos que segue para o seu terceiro mandato, elogia Paulete, mas trata de subdividir a ala das parlamentares por gênero. “Atualmente somos quatro mulheres na Casa. A partir do próximo ano, infelizmente, só teremos duas mulheres e Paulete”.

“não foi voto de protesto, foi um voto consciente”

Com a bolsa de cosméticos pendurada no ombro, Paulete dificilmente percorre a cidade sem ser notada. Costuma ser tratada com respeito, mas diz notar o arsenal de piadinhas a sua volta, além de ter sido alvo de uma campanha difamatória de um grupo de concorrentes na última eleição. “Eles aceitam porque eu ganhei, mas na verdade estão engolindo atravessado. Fui muito discriminada por uma parte dos políticos. Eles diziam pros eleitores: ‘Você vai deixar de votar num homem trabalhador, pai de família, pra votar no veado?’”.
O tratamento agora é outro. “Pelo menos disfarçado… Mas vai ter respeito. Isso está mudando. Eu vou abrir as portas. Outras virão”. Belarmino Souza, presidente do PHS em Pernambuco, contorciona o próprio discurso ao falar do convite do partido. “O partido não enaltece e não repudia (a filiação de travestis). O partido aceita. A própria sigla diz que somos humanistas”.
Durante a campanha, Paulete chegou a preencher um boletim de ocorrência depois de sua moto ter sido “trancada” por um carro de passeio que vinha na contramão. Conseguiu desviar a tempo, mas não interpretou o episódio como um mero acidente. O veículo nunca foi identificado pela Polícia, mas José Otávio, candidato derrotado a prefeito de Palmares pelo PHS, trata de minimizar o caso. “Teve muito exagero. Ele interpretou como uma ameaça, mas acho que não passou de uma coincidência infeliz”.
 
Paulete vê a sua votação como um fenômeno desconectado do seu visual ou da opção sexual. “Não foi um voto de protesto. Foi um voto consciente. São pessoas que me conhecem e votaram em mim para me dar uma chance. O comentário na cidade era de que eu seria o Tiririca de Palmares, que eu seria a mais votada. Mas não foi isso o que aconteceu”.
Soltando promessas genéricas de melhoria de saneamento básico, saúde, esportes e oportunidades aos jovens, acabou abrindo o leque de eleitores ao evitar direcionar sua campanha à causa LGBTS. “Eu falava sempre que ia fazer a diferença, tanto pela minha classe quanto pelo social”. Temendo plágio, não divulgou os projetos de lei que pretende aprovar, e nega que a proposta de adquirir com recursos próprios uma ambulância seja de cunho assistencialista. “Sei que tem como conseguir (no serviço público), mas nem sempre está disponível para a população, que às vezes não tem como pagar R$ 25 de táxi até o hospital regional”.
 
Paulete cuida da mãe doente numa casa modesta de três quartos no bairro de Santo Antonio, um dos mais pobres da cidade, onde também moram dois irmãos e sobrinhos. O diálogo é quase zero e a opção sexual de um dos filhos virou tabu na família, a ponto de um dos irmãos se isolar nos fundos da casa até que a entrevista e a sessão de fotos com a parente famosa tivessem fim.
Fora de casa, é tida como alguém sempre prestativo, porém de semblante fechado. “Talvez seja por tudo o que passei na vida”, argumenta. O motoboy José dos Santos é quem decifra o sentimento dos seus primeiros eleitores. “Os que ganharam antes dela não aparecem, não dão as caras depois que ganham. A gente vê Paulete todo dia. E ela continua aparecendo depois que ganhou. Achei melhor votar e ajudar”.
 
A despeito do que pensam dela, nada vem tirando o sono da futura parlamentar quanto as entrelinhas do artigo 16 do regimento interno da Câmara Municipal de Palmares, espécie de código de regras e condutas dos vereadores: “É obrigação do vereador comparecer às reuniões, na hora regimental, uniformizado com gravata e paletó (…)”.
Para a solenidade de diplomação, que ocorreu no último dia 18 de dezembro, mandou preparar um blazer preto que adaptou com cortes justos, femininos. Tudo dentro da lei, reforça. Numa visita à costureira para ajustes, olha para a guardiã da indumentária e emenda: “Estou pensando numa gravata borboleta. Vou ver com a juíza se pode”. No final de contas, nenhuma coisa nem outra. Fotos da solenidade revelam uma escolha sóbria: um blazer creme, camisa azul clara e cabelos presos.
Já para o dia da posse, marcada para 1º de janeiro de 2013, vem guardando o traje a sete chaves. Revela com prazer indisfarçável que uma bolsa de apostas surgiu em Palmares em meio a especulações sobre o estilo e a cor da roupa que vai vestir. “Esse dia vai ser tudo”. Aos que apostaram num terno rosa — espécie de barbada entre os palpiteiros de plantão —, Paulete alimenta o suspense e limita-se a descrever a roupa quase como uma metáfora da própria trajetória pessoal. “Na verdade, o bom é causar. Mas de maneira simples e natural. Aquele simples também causa”.
 
André Duarte (texto)
Bernardo Dantas (fotos)

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