'A maior parte da cultura que estamos consumindo e gostando é regional', diz Frédéric Martel

 
Entre todos os conflitos, seja na Síria, no Congo, no Mali, ou em qualquer outro lugar, um talvez esteja mais próximo de nós do que imaginamos. A guerra pela cultura e pelos conteúdos nos meios de comunicação está em nossas casas, no que lemos, no que assistimos e, até mesmo, no que vestimos e falamos. De um lado, temos a hegemonia cultural norte-americana, construída ao longo dos séculos XX e XXI, que exporta formatos televisivos, filmes, livros, música, todo um pacote que pode ser moldado para o mundo ou para nichos específicos. Do outro, blocos regionais que tentam ganhar espaço e, ao mesmo tempo, reforçar alguns traços da cultura local.

A disputa por influência e pelo público que mobiliza indústrias, governos e microempresas criou o que o sociólogo e jornalista francês Frédéric Martel chama, em seu livro ‘Mainstream,’ de ‘capitalismo hip’, ou seja, ‘um capitalismo cultural global muito concentrado, muito descentralizado, ao mesmo tempo força criadora e destruidora’. “Trabalhamos para nos tornar parecidos com os EUA, mesmo querendo manter nossa identidade e cultura”, provoca ele.
O que é interessante na análise do sociólogo francês não é que exista uma dominação norte-americana, mas apenas uma predominância. A emergência de outros atores, como a Al-Jazeera, a indústria de Bollywood, entre outros, reflete o que vimos acontecer na economia e na política. Pouco a pouco, atores regionais ganharam força e, o que antes era um contexto de unipolaridade, liderado pelos Estados Unidos, hoje é um ambiente multipolar e com relações complexas em diferentes níveis. O trabalho de Martel lembra que cada ato nosso é um ato político. Cada ingresso que compramos, cada programa que assistimos ou livro que lemos está imbuído de uma história e que, por estarmos inseridos no meio desta batalha silenciosa, nossas escolhas influenciam o discurso e a cultura que queremos em nossas vidas.

Veja em vídeo a entrevista completa com Frédéric Martel.

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