Conflito no Congo Democrático segue dentro de momentos

 
O conflito na RDC, mais especificamente na região do Kivu Norte, que agora parece ter conhecido um dos seus habituais afrouxamentos, promete prosseguir dentro de mais algum tempo, uma vez que tem na sua génese um problema que tarda em ser solucionado. O grande problema da região congolesa do Kivu Norte reside na sua riqueza, por um lado, associada a uma certa falta de sensibilidade por parte do governo de Kinshasa em resolver os principais problemas da população que se sente marginalizada no aproveitamento que é feito das riquezas que ajuda a produzir ou que vê, perante os seus olhos, serem levadas para paragens distantes e usadas na resolução de outras situações que não as suas.

Essa falta de sensibilidade, alheada a alguma ausência de competência por parte dos militares congoleses, permite que um grupo de pouco mais de 1.500 soldados rebeldes organizados em redor do grupo M23 fosse capaz de ocupar a cidade de Kigali, na região de fronteira com o Ruanda, e tivesse, mesmo, a ousadia de lançar a séria ameaça de caminhar até Kinshasa para depor o eleito Presidente Joseph Kabilia. Sendo a RDC o mais vasto país do continente africano, e beneficiando os rebeldes, supostamente, do apoio de um pequeno país como o Ruanda, como entender que as autoridades de Kinshasa não fossem capazes de, uma vez por todas, fazer sentir a sua legítima autoridade de modo a dissuadir a ocorrência de outros episódios do género?
Em primeiro lugar porque o governo do Presidente Kabila e com ele as forças armadas só consideram a região do norte do Kivu como parte integrante do seu território quando está em causa a exploração das suas riquezas diamantíferas ou quando surge uma ameaça como a que acaba de ser protagonizada pelo M23. Durante o regime de Mobutu já assim era, com a agravante deste não ter tido em conta a ameaça então protagonizada por Desiré Kabila (pai do actual Presidente) e que acabou por lhe custar o próprio poder.
O Ruanda, habitualmente olhado como o mau da fita para justificar a forma desajeitada como o governo congolês tem lidado com este problema, acaba também por ser vítima desta falta de autoridade do executivo de Kinshasa, uma vez que a fronteira entre os dois países, onde está a cidade de Goma, é palco frequente de acção por parte de diversos grupos de bandidos que tentam, também eles, aproveitar a desorganização existente para intensificar a prática de extracção ilegal diamantes.
Frequentemente, esses grupos utilizam o território ruandes como ponto de apoio para esse tipo de movimentação, o que, como facilmente se compreende, causa embaraços às autoridades locais. Tal como em ocasiões anteriores, também agora a SADC, sobretudo países vizinhos da SADC, os que mais sentiriam os efeitos de uma crise mais prolongada, tiveram um papel preponderante para que fosse encontrada uma porta de entrada para a procura de uma solução que todos pretendem seja mais duradoura que a anterior.
Essa solução passa pelo diálogo entre o governo de Kinshasa e os líderes dos movimentos rebeldes que reivindicam uma repartição mais justa das receitas arrecadadas com as riquezas extraídos do Kivu Norte, de modo a que a população local se sinta realizada na busca de um remédio para os seus inúmeros problemas. Mas nenhuma solução tem os desejados efeitos positivos sem um diálogo franco e aberto entre os governos de Kinshasa e de Kigali e que envolva, igualmente, ao países vizinhos que habitualmente têm, pontualmente, tentado ajudar a encontrar uma solução. Países como Angola, Congo Brazzaville, Tanzânia e Sudão do Sul, sobretudo, têm que ter uma voz activa para que a RDC e o Ruanda acertem os mecanismos que evitem acusações mútuas que em nada ajudam a resolver o cerne do problema.
Por outro lado, a RDC tem que encontrar os mecanismos necessários para que possa fazer impor a lei e a ordem em toda a extensão do seu território nacional, de modo a que os seus vizinhos não se sintam constantemente ameaçados por grupos de rebeldes armados, sem expressão ao nível nacional mas que podem ameaçar e subverter o traçado rumo para o desenvolvimento da região austral de África por via da criação de conflitos que todos sabemos como começam, mas que ninguém sabe como podem acabar.
No rescaldo de mais uma situação de crise no Kivu Norte está o facto do Presidente Joseph Kabila ter anunciado a sua aceitação em dialogar com os rebeldes do M23 de forma a encontrar uma solução que evite o reacender de novos problemas. Essa abertura ao diálogo pode ser o prenúncio de que algo irá mudar na forma como Kinshasa tem vindo a abordar o problema do Kivu Norte e que esses rebeldes, mesmo que motivados por intenções menos humanistas para com a população local, terão um espaço de manobra mais reduzido para usar a toda a sua influência belicista.
Ao mesmo tempo, impõe-se que a própria SADC dê mais atenção a este problema que, embora tenha na sua essência um foco interno na RDC quando deflagra, como agora, ameaça envolver uma série de outros países e transformar-se num enorme pólo de agitação capaz de desestabilizar toda a região. Se assim não for feito, então teremos dentro em breve a erupção de um problema semelhante, ou pior, do que este, em que apenas no espaço de uma semana mais de 60 mil pessoas foram atiradas para um único campo de refugiados durante o avanço dos rebeldes do M 23 sobre a cidade de Goma. Os próprios 6.700 militares que as Nações Unidas há muito enviaram para a região do Kivu Norte, por falta de mandato adequado ou por incapacidade militar tem sido meros espectadores das repetidas situações de crise que sistematicamente ali ocorrem.

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