João Cândido Felisberto (Almirante Negro)

Por Carlos Nobre Cruz (via facebook)
 
 
J.C.

Se Zumbi soubesse que o 22 de novembro fica eclipsado por causa de sua presença histórica, com certeza, iria pedir silêncio todas às manifestações, atos, festas, eventos, seminários, discussões onde, que ocorrem, neste momento, exatamente em 20 de novembro, que lembra sua morte, em 1695, na serra Dois Irmãos, em Alagoas.
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Ele, na certa, pediria que a gente refletisse mais sobre o 22 de novembro de 1910 quando o marinheiro negro João Candido comandou a chamada Revolta da Chibata, no Rio de Janeiro, reivindicando algo importantíssimo para os marujos ( 90% da tropa era constituída de pretos e pardos), ou fim , o fim dos castigos medievais nos navios. Apesar de a escravidão ter oficialmente acabado em 1888, ela continuava viva em diversas instituições republicanas como a Marinha. Esta Força era paradoxal/conflitante naquela época: constituída em seu oficialato por cerca de 100% de brancos, alguns descendentes dos escravocratas, e uma base(marujos) formada essencialmente por negros e pardos.
 
Naquele caso, ali, na Revolta da Chibata, tratava-se uma luta de classe/cor violentíssima na Belle Époque brasileira... Belle Époque é tempo de progresso, mudanças sociais, incremento do capitalismo, fortalecimento arquitetônico, de novas maneiras educacionais, da valorização artística, de descoberta da identidade brasileira, como acentuaram Gilberto Freyre em “ Ordem e Progresso”.  No entanto, esse movimento artístico-cultural, a Belle Époque, não tem nada a ver com a comunidade negra da época, recém libertada. A Abolição foi uma fraude, eles não conseguiam se empregar na nova indústria, pois, não tinha qualificação.


E, no campo, os negros foram expulsos pelos imigrantes europeus e de outros continentes, beneficiados por diversas políticas de ações afirmativas implementadas pelas elites republicanas.
Assim, mais 3 milhões de imigrantes invadiram o pais...seus descendentes hoje brilham na política como Kassab e Haddad, entre outros.
 
J.C. e seus companheiros compreendiam isso, mas não tinha condições de reprocessar esse calhamaço informativo para os demais. Em primeiro lugar, porque não foram educados para tal. Em segundo, estavam num momento onde a sociedade brasileira resistia tenazmente a qualquer política de ascensão afro, preferindo mantê-los em empregos subalternos. No entanto, rola, aqui, uma contradição importante: a Marinha brasileira daquela época necessitava se reequipar e se modernizar urgentemente, sob o risco de ser ultrapassada por outras Marinhas latino-americanas.


Ou seja: precisava dar mais adestramento à sua tropa.
Neste sentido, estabelece convênio de cooperação com Marinha inglesa para treinamento de seus quadros abaixo do oficialato. J.C. e outros marujos, na Inglaterra, enviados para tal empreendimento, aprendem às manobras da escola naval inglesa. Eles retornam ao Rio manobrando os mais modernos navios, e aprofundam o conhecimento do mar e da guerra no mar.

 No entanto, os castigos, persistiam.
 
Por exemplo: o uso da chibata como castigo na Marinha brasileira já havia sido abolido em um dos primeiros atos do regime republicano, o decreto número 3, de 16 de Novembro de 1889, assinado pelo então presidente marechal Deodoro da Fonseca. Todavia, o castigo cruel continuava de fato a ser aplicado, a critério dos oficiais da Marinha. Insatisfeitos com os baixos soldos, com a má alimentação e, principalmente, com os degradantes castigos corporais, crescia o clima de tensão dentro da Marinha. Então, eles, os marujos, sob a liderança de J.C. criam um movimento conspiratório poderoso. Na Praça Mauá, num boteco pé sujo, passam a se reunir e beber e a comentar sob o movimento que pretendiam deflagrar.


O estopim da crise ocorre quando o marinheiro Marcelino Rodrigues foi castigado com 250 chibatadas, por ter ferido um colega da Marinha, dentro do encouraçado Minas Gerais.
O navio de guerra estava indo para o Rio de Janeiro e a punição, que ocorreu na presença dos outros marinheiros, desencadeou a revolta.  O motim se agravou e os revoltosos chegaram a matar o comandante do navio e mais três oficiais. Já na Baia da Guanabara, os revoltosos conseguiram o apoio dos marinheiros do encouraçado São Paulo.

O clima ficou tenso e perigoso.


Assim, em 22 de novembro de 1910, o líder da revolta, João Cândido (conhecido como o Almirante Negro), redigiu a carta reivindicando o fim dos castigos físicos, melhorias na alimentação e anistia para todos que participaram da revolta. Caso não fossem cumpridas as reivindicações, os revoltosos ameaçavam bombardear a cidade do Rio de Janeiro (então capital do Brasil).  Diante da grave situação, o presidente Hermes da Fonseca resolveu aceitar o ultimato dos revoltosos. Porém, após os marinheiros terem entregues as armas e embarcações, o presidente solicitou a expulsão de alguns revoltosos, descumprindo o acordo feito anteriormente com os revoltosos
A insatisfação retornou e, no começo de dezembro daquele asno, os marinheiros fizeram outra revolta na Ilha das Cobras.

Esta segunda revolta foi fortemente reprimida pelo governo, sendo que vários marinheiros foram presos em celas subterrâneas da Fortaleza da Ilha das Cobras.
Neste local, onde as condições de vida eram desumanas, alguns prisioneiros faleceram. Outros revoltosos presos foram enviados para a Amazônia, onde deveriam prestar trabalhos forçados na produção de borracha.  O líder da revolta João Cândido foi expulso da Marinha e internado como louco no Hospital de Alienados. No ano de 1912, foi absolvido das acusações junto com outros marinheiros que participaram da revolta.
 
Ele morreu em 6 de dezembro de 1969, no Rio de Janeiro.
 
Vejam como a figura de J.C. ensejou a maior resistência a ele no Brasil.
 
1.Em primeiro lugar, nunca teve anistia da Força. Pelo contrário. Durante todo o século XX cresceu, entre a elite militar, uma rejeição completa à sua figura.
 
2.Em segundo, a homenagem a ele feita por militantes afros no Rio de Janeiro – um monumento ao marinheiro, em meados anos 2000 – teve que ser abrigada inicialmente na Museu da República, pois, a Marinha reagira à presença desta estátua nas ruas do Rio. Somente com a presença de Luiz Inácio Lula da Silva, há quatro anos, no Rio, o monumento foi levado do Museu da República para à Praça Quinze, onde ele foi fincado, e permanece até hoje.
 
3.A então senadora petista Marina Silva conseguiu aprovar no Congresso Nacional projeto anistiando os marinheiros da Revolta da Chibata. Em seu segundo governo, Lula pretendia sancionar a lei. Mas alguns companheiros disseram que a soma a ser dada aos parentes seria bilionária e prejudicaria o orçamento. O presidente, então, recuou, e nem tentou um acordo com os descendentes dos marinheiros.
 
Mas devido à sua importância histórica, diversos movimentos negros tentam resgatá-lo, ele, J.C., nesta data. Em geral, no Rio de Janeiro, se enfatiza o eixo temático 20 de novembro: “ De João Cândido a Zumbi”. Mas estamos precisando com urgência definir o papel de J.C. e a  Revolta da Chibata no 20 de novembro.

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