Fliporto é chance de pernambucanos conhecerem Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues é tema de oficina de dramaturgia. (Foto: Divulgação)
Nelson Rodrigues é homenageado na Fliporto 2012, que ocorre em Olinda, neste feriadão
(Foto: Divulgação)
Os pernambucanos terão na Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto) a chance de conhecer - melhor - um conterrâneo: Nelson Rodrigues. O jornalista, escritor e dramaturgo nasceu no Recife, em 1912. Ainda criança, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde fez carreira e fama. Mas, segundo parentes e especialistas, o estado natal deixou traços em sua personalidade e obra. O centerário do 'Anjo pornográfico' será homenageado no evento, que começa nesta quinta-feira (15), em Olinda. É uma bela lembrança para o famoso cidadão que sequer batiza um teatro ou rua importante da capital.

Luis Augusto Reis, professor e pesquisador do Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), vai mediar o debate "Nelson Rodrigues em cena", no domingo (18), durante o congresso literário. Para ele, a alma do escritor está ligada a Pernambuco. "A filha dele tem dito que Nelson só é o que é porque viveu a infância aqui e nunca deixou de pensar em Pernambuco, embora isso não apareça diretamente na literatura e nas peças dele. Indiretamente sim, sobretudo na forma que eles saíram daqui, com dificuldades financeiras e perseguições. Lá, ele continuou tendo uma vida difícil. A alma ligada à infância em Pernambuco lhe conferiu uma certa melancolia de quem está fora do habitat natural", aponta.

Se não há uma única sala em memória ao dramaturgo no Recife, Luis Augusto Reis afirma que ele está bastante presente no teatro pernambucano. "Já houve montagens muito significativas aqui. De certa forma, ele está homenageado por nós. Claro que mereceria mais, porque foi um criador genial, não fez concessões, fez o teatro dele com muita coragem. É o nosso Sheaskpeare, que criou um universo próprio, um jeito de ver o mundo por meio do Brasil. Reatrata um brasileiro, que pertence a todo ser humano. Fez um teatro desagradável, que pega a platéia de surpresa, nos confronta com elementos humanos e partes da nossa existência que são difíceis", pontua.
Montagem pernambucana de 'Senhora dos Afogados', de 1993 (Foto: Antonio Cadengue)Montagem pernambucana de 'Senhora dos Afogados', de 1993
(Foto: Antonio Cadengue / Acervo pessoal)
 
Nelson Rodrigues no teatro pernambucanoO diretor pernambucano Antonio Cadengue foi um dos que mais deu atenção à obra rodrigueana por aqui, adptando diversos textos ao teatro. A peça "Viúva, porém honesta" foi o primeiro contato dele com o autor no palco, em 1977, com o grupo de teatro Vivencial. Outras montagens que realizou de Nelson Rodrigues foram: "Toda nudez será castigada" (1980), "Valsa n. 6" (1986, 1987 e 1990).
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Em 1993, veio a montagem que mais repercutiu na imprensa e junto ao público: "Senhora dos Afogados", pela Companhia Teatro de Seraphim. Ainda teve "Perdoa-me por me traíres", em 1997. Quase dez anos depois, organizou, junto com Aimar Labaki, o seminário "Recife Nelson Rodrigues", durante o 9° Festival Recife do Teatro Nacional, que resultou no livro "A esfinge investigada", publicado em 2007.

E como se fosse uma obsessão, Cadengue voltará a Nelson Rodrigues levando à cena "Doroteia", projeto contemplado no edital do Funcultura 2012, que estreia em 2013. "Apesar das minisséries televisivas, acho que o pernambucano, fora da elite intelectual, ainda desconhece a obra de Nelson. Acredito até que ele foi colocado tardiamente em relevo por ter nascido aqui. Temos que nos orgulhar desse escritor que fala muito sobre nós, dá um espelho dos nossos desejos, angústias, agonias, e nós costumamos a cuspir nessa imagem. Ele pega um brasileiro, a figura de um ser humano, a partir da normalidade, e o eleva ao mítico", defende.

Gilberto Freyre em Nelson Rodrigues
Cadengue encontra em Nelson Rodrigues reflexos do conterrâneao Gilberto Freyre, famoso sociólogo, antropólogo e historiador. Sobretudo nos abismos vertiginosos de personagens, no tipo de passionalidade pernambucana e nos traços da sociedade patriarcal. "Tudo isso forma 'patologias', cenários com raízes fincadas em Pernambuco. E em ambos os trabalhos há influência das classes sociais vigentes, eles não tratavam de algo que não conheciam", comenta.
Candegue lembra que Rodrigues teria escrito 'Senhora dos Afogados' após temporada no Recife (Foto: Luna Markman/ G1)
Antonio Candegue levou vários textos de Nelson Rodrigues
ao palco (Foto: Luna Markman/ G1)
 
O diretor lembra, inclusive, que Gilberto Freyre fazia parte de uma comissão de notáveis que avaliou e atestou os méritos artísticos de "Senhora dos Afogados", no lançamento, em 1947. "Vejo ressonância de 'Casa Grande & Senzala' [Freyre, 1933] e 'Sobrados e Mucambos' [Freyre,1936] nessa peça, quando ele pega elementos da sociologia, antropologia, filosofia. Dizem que Nelson escreveu após uma temporada no Recife, na adolescência, onde sentiu o cheiro do mar. Vejo também em 'Álbum de Família' [Rodrigues, 1945] aquele labirinto de desejos. Em 'Anjo Negro [Rodrigues, 1946], quando ele desconstrói o folhetim, faz uma paródia do melodrama, assim como Freyre ultrapassou os limites dos gêneros também", afirma.

Nelson Rodrigues no congresso literário
Como não poderia deixar de ser, diversas mesas de discussão da Fliporto terão Nelson Rodrigues como tema. Na sexta-feira (16), às 20h, Braz Chediak, Neville de Almeida, Lucélia Santos e Nelson Rodrigues Filho, com mediação de Alexandre Figueirôa, discutem a obra rodrigueana levada ao cinema. No sábado (17), às 16h30, Ruy Castro - autor de 'O Anjo pornográfico', a consagrada biografia de Nelson - conversa com Heloísa Seixas e Geneton Moraes Neto sobre os segredos e inconfidências do dramaturgo.
No domingo (18), às 10h, Sonia Rodrigues e Maria Lucia Rodrigues, filhas de Nelson, com Adriana Armony e Rogério Pereira debatem "as mulheres (d)e Nelson Rodrigues". Por fim, ao meio-dia, José Castello, Antônio Cadengue e Luis Augusto Reis debatem sobre Nelson Rodrigues em cena. "A palavra cena assume aqui duas conotações: diretores de teatro que fazem montagens, ou seja, como a literatura dramática dele chega ao palco, quais os desafios para montar Nelson; e a outra significação é a existência de Nelson, a vida dele. José Castello teve a chance de conviver com ele no fim da vida e vai fazer esse relato comovente e bonito", adianta o professor da UFPE.

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