“A tua religião proíbe comer porco, mas podem matar pessoas?”

 (Foto: Bay Ismoyo/AFP)
Os atentados de 2002 na ilha indonésia de Bali fizeram 202 mortos e 240 feridos, segundo os dados oficiais. Mas há outras feridas que foram abertas quando estes números já estavam fechados.

 
Giland Pratama tinha 12 anos quando ocorreram os piores atentados terroristas na história da Indonésia, o país com maior número de muçulmanos em todo o mundo. A comunidade muçulmana, que segue um Islão maioritariamente moderado, representa 87 por cento dos 240 milhões.

Porém, após os atentados alguns muçulmanos sentiram-se discriminados. Giland Pratama recorda que lhe perguntaram: “A tua religião proíbe comer porco, mas vocês podem matar pessoas?“. E ainda que houve quem passasse a pensar que “todos os muçulmanos são terroristas”.

A Indonésia, que reúne mais de 17000 ilhas, é conhecida pela convivência pacífica entre religiões, culturas e línguas e em Bali, a tolerância tem ainda mais importância, ou não fosse aquela a “ilha do paraíso”, onde quase tudo é construído para os turistas se sentirem bem.

O professor de língua indonésia numa escola secundária, que vive em Denpasar, capital da província de Bali, e que tem muito interesse em aprender mais inglês, recorda um tempo triste, já que antes dos ataques todos viviam em “harmonia e segurança”. A “discriminação” não foi muito expressiva e, ainda que se tenha voltado a sentir após os atentados de 2005, que fizeram 20 mortos, a situação já está mais do que ultrapassada.

Apesar de ser uma criança na altura, Giland não se revoltou, porque sabia que os balineses estavam “traumatizados”. “O propósito de todas as religiões é construir a paz”, frisa, defendendo que nestes casos o mais eficaz é usar as conversas do quotidiano para esclarecer que os muçulmanos não suportam o terrorismo.

Na visão do jovem de 22 anos, que usa t-shirt e calças de ganga e que se descalça à entrada, os balineses ainda não se sentem seguros quanto ao terrorismo. O professor, que também é músico e voluntário numa organização não governamental, alerta, contudo, que às vezes os avisos dos governos relativamente ao terrorismo podem até ser conspirações para desviar as pessoas dos “reais problemas” do país e “controlar o povo”.

Após os atentados de 12 de Outubro de 2002, atribuídos à Jemaah Islamiyah, uma antiga rede indonésia com ligações à Al-Qaeda, Giland Pratama viu ainda o pai ter de desistir do negócio do turismo, devido à falta de visitantes na ilha, e tentar “sobreviver de outra forma”.

Nenhuma religião permite matar outro ser humano
Hayati Laskmi tem mais razões para se prender ao passado do que Giland Pratama, mas não o decidiu fazer. Ao perder o marido nos atentados, ficando com dois filhos para criar, não pode escolher “apenas lamentar-se”. “Tive de seguir em frente”, conta, realçando que estes dez anos “foram um longo caminho”.

A entrevista acontece numa deslocação desta muçulmana ao memorial das vítimas dos atentados, no centro de Kuta. Hayati Laskmi, que também é de Denpasar, confessa que o pior são as recordações, ter “todas as memórias de volta”. Porém, logo vai buscar as forças que diz ter ganho com o que lhe aconteceu para dizer que é preciso ser “dura”.

Sobre se houve ou não discriminação para com os muçulmanos de Bali, a balinesa afirma que “pode ter havido um momento”, mas acrescenta que não se pode indicar o “momento A”.

“Eles [Jemaah Islamiyah] podem chamar-se muçulmanos, mas as vítimas também eram muçulmanas e como muçulmanos não apoiamos o que eles fizeram. Em nenhuma religião há algo que justifique matar outro ser humano”, acrescenta.

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