Guerra do Contestado: desigualdade social, coronelismo e religião no interior do Brasil

 
 
Entre os anos de 1912 e 1916, a região da divisa entre os estados de Santa Catarina e Paraná foi palco de um conflito sangrento e extremamente violento: a Guerra do Contestado. A região dominada por coronéis da República Velha era até então isolada e esquecida dos poderes públicos, reinando, portanto, a lei do mais forte. A autorização por parte do governo federal da construção de uma estrada de ferro que ligasse São Paulo ao Rio Grande do Sul acabou por colocar o “tempero” que faltava naquela sociedade que já possuía uma frágil estrutura, pois expulsou milhares de camponeses de suas terras que buscaram, então, defender sua terra, sua gente. O historiador da UFSC, Paulo Pinheiro Machado, um dos maiores especialistas do país nesse conflito, concedeu uma entrevista sobre o tema:



Após 100 anos do conflito, a imprensa e a sociedade brasileira já têm consciência ou reconhecem esta guerra na dimensão que ela merece?

Apesar do crescente número de publicações, o conflito do Contestado é ainda muito pouco conhecido pela população brasileira. Durante muito tempo foi tratado como um assunto “regional”, de interesse apenas aos catarinenses e paranaenses. Qualquer estudo superficial sobre o movimento conclui que se tratou de um conflito de grandes proporções, atingindo uma região maior que 30 mil km² e uma população superior a 100 mil habitantes, nos quatro anos de guerra, mais de 10 mil mortos. Além disso, as questões que motivaram o conflito estavam presentes em várias partes do interior do Brasil. Mas já existe uma tendência à nacionalização do tema, tendo sido questão do ENEM e de vestibulares no Rio, em Minas e no Maranhão. O atual desafio é a confecção de material didático e paradidático com maior profundidade e formação de professores, de ensino fundamental e médio, que estejam preparados para trabalhar com esses conteúdos.
 
 
Parte da imprensa publicou algumas entrevistas com sobreviventes da guerra, já com idade avançada, na faixa dos 100 anos de idade. É possível extrair desses sobreviventes aspectos ainda novos do conflito?Ainda há uma memória viva muito interessante na região, mas se trata de uma memória de segunda geração (mesmo de indivíduos que eram crianças na época da guerra, a sua memória atual é muito mais uma reelaboração do que era dito por seus pais). Ela apresenta com frequência muitas imprecisões e misturas de personagens e eventos do próprio conflito, mas é inegável a contribuição, como fonte, para jornalistas e historiadores. O jornal O Estado de São Paulo fez uma interessante reportagem com sobreviventes, publicada em fevereiro de 2012. Nas falas deles ainda está presente o medo e a dor por terem passado por um evento tão impactante. Como a memória sobre o conflito vem sendo colhida por diversos pesquisadores desde os anos 1950 (Euclides Felipe, Vinhas de Queiroz, Cabral, Duglas Teixeira Monteiro, Thomas Pieters e outros mais recentes), quando muitos participantes da Guerra ainda estavam vivos, é difícil determinar se algo novo pode ser dito por atuais depoentes.
 
Quem eram os trabalhadores que construíram a ferrovia que ligou São Paulo ao Rio Grande do Sul, que é considerada uma obra que desencadeou o conflito?Por muito tempo se acreditou nas informações do Relatório do General Setembrino de Carvalho, de que a estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (principalmente seu último trecho, entre União da Vitória-PR e Marcelino Ramos-RS) foi construída por milhares de trabalhadores do nordeste do Brasil, muitos deles criminosos. Dizia o General que, por deslealdade dos empreiteiros, ao final da obra o pessoal não foi levado aos locais de origem. E que deste grupo saíram vários dos que lutaram entre os sertanejos. Em minha pesquisa não encontrei qualquer documento que pudesse registrar um deslocamento tão grande de trabalhadores de outros estados. Entre as lideranças do movimento do Contestado não há nenhuma proveniente de origem geográfica tão distante, com a exceção de Vanuto Baiano (Benvenuto Alves de Lima), mas este veio da Bahia na década de 1890, muito antes da construção desse trecho da Estrada de Ferro. Em trabalho recém-publicado (Personagens do Contestado: os Turmeiros da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande. Pelotas: Ed UFPEL, 2011) a professora Márcia Espig demonstra que vários dos turmeiros da Estrada de Ferro eram em parte moradores da região e, em grande número, imigrantes europeus atraídos pela Brazil Railway para trabalhar na obra e, ao mesmo tempo, adquirir lotes das terras recebidas pela empresa do governo federal. O principal impacto exercido pela ferrovia para o início do movimento está na ocupação das margens de concessão (até 15 km de cada lado do leito da estrada) e a consequente expulsão de posseiros e ervateiros dos vales dos rios do Peixe, Iguaçu médio e Negro.
 
É possível de forma sucinta pontuar as causas e as consequências da Guerra do Contestado para a história da região e do Brasil?Como causas, podemos listar:

1. A questão de terras e a expropriação de posseiros e ervateiros caboclos. Isto ocorreu em três processos diferentes: a) A gradativa concentração fundiária promovida por pecuaristas de Lages, Curitibanos e Campos Novos, que transformavam em agregados os posseiros e sitiantes independentes nos limites de suas fazendas, em vias de legitimação e formalização no início da República. b) A concessão de até 15 km de cada lado do leito da Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande, para a empresa norte-americana, que envolveu uma expulsão repentina e numerosa de posseiros dos vales dos rios do Peixe, Negro e Iguaçu médio e c) A grilagem de coronéis da Guarda Nacional do Paraná sobre os territórios contestados por Santa Catarina, que promoveu a concentração fundiária e a privatização de ervais nativos na região de União da Vitória, do rio Timbó, em Três Barras, Rio Negro, Papanduva e Itaiópolis.


2. O Coronelismo e sua relação de violência política e subalterização dos pobres do campo. Há uma forte crise política nos anos 1911 a 1918, com a quebra de laços clientelísticos, principalmente nos municípios de Curitibanos e Canoinhas.

3. A militarização crescente da questão de limites por parte dos Estados do Paraná e Santa Catarina. Muitas autoridades municipais mantinham grupos de vaqueanos armados, disponíveis para a ação nas regiões contestadas. Muitas vezes esses grupos armados eram um poder real local, o que desestabilizava a vigência de outros órgãos de Estado.

4. A herança política e militar da Guerra Federalista (1893-95). A campanha federalista, por recrutar agricultores e peões para os dois lados da contenda trouxe à população do planalto uma tradição de luta e o conhecimento de práticas de combate. O planalto catarinense, pela própria fragilidade do aparelho de Estado, tornou-se um ponto de recepção e asilo de muitas lideranças federalistas do Paraná e do Rio Grande do Sul.

5. A tradição cultural de João Maria. A trajetória do monge ou dos diferentes indivíduos que assumiram a identidade de João Maria, criou um espaço de autonomia e organização da população sertaneja, independente do Estado e do Clero.

Como consequências da Guerra, consolidou-se a concentração fundiária nas regiões de campos naturais, reforçaram-se os poderes dos Coronéis, diminuiram a autonomia e a independência de pequenos posseiros e sitiantes. Vastas regiões do meio-oeste e oeste de Santa Catarina e do Paraná foram colonizadas por imigrantes europeus e seus descendentes, empurrando a população nacional cabocla e indígena mais a oeste e para as regiões mais montanhosas e menos férteis.
 
Atualmente a região superou os problemas sociais que eram comuns no início do século XX (1912-1916)?

Não superou. Como ocorre no restante do Brasil, a região ainda apresenta fortes contrastes sociais, péssima distribuição de renda, concentração fundiária e, entre os núcleos caboclos remanescentes, baixíssimos níveis de IDH (o índice internacional que mede o desenvolvimento humano, baseado principalmente em dados de saúde e escolaridade). Quando me refiro aos caboclos, não estou considerando apenas os mestiços e descendentes de indígenas e africanos, mas também descendentes de imigrantes “acablocados”, que vivem em regime de subsistência e possuem a mesma perspectiva e devoção a João Maria. Ainda é necessária uma forte ação do Estado nos ramos da saúde, educação e reforma agrária para a população pobre.

 
Por que um conflito tão longo e tão sangrento demorou tanto para atrair a atenção dos historiadores profissionais?

O movimento do Contestado já foi alvo de investigação de muitos historiadores e pesquisadores de ciências humanas, que desenvolveram trabalhos importantes, mas que sempre ficaram restritos a um público pequeno de leitores especializados. É uma literatura mais extensa e diversificada que a existente sobre Canudos. Isto aconteceu com os primeiros cronistas militares (Demerval Peixoto, Assumpção, Cerqueira, Pinto Soares, Vieira da Rosa), com os investigadores dos anos 1950 (Brasil Gerson, Aujor Luz, Maria Isaura P. de Queiroz, Vinhas de Queiroz, Cabral) e os trabalhos mais recentes, a partir dos anos 1970 (Duglas Monteiro, Jean-Claude Bernardet, Romário Borelli, Zélia Lemos, Nilson Thomé, Marli Auras, Ivone Gallo, Márcia Espig, Delmir Valentini, Rogério Rosa Rodrigues e o meu próprio). O que faltou ao movimento do Contestado foi uma maior exposição pública e uma popularização desses estudos em livros didáticos para o ensino fundamental e médio.

 
Professor, ao longo de todos esses anos que focou seus estudos na história do Contestado, o que mais lhe chamou a atenção?

Fiquei surpreendido com a capacidade de luta e determinação da população sertaneja em defender as suas vidas e seu projeto. Eles não desenvolveram apenas uma luta reativa contra as frequentes agressões externas que sofreram. Foram adiante, criaram suas “Cidades Santas”, com instituições que procuravam dar uma nova vida ao povo pobre, unido por fortes laços comunitários de solidariedade. A Monarquia dos sertanejos não significava a restauração dos Braganças no Brasil, eles lutavam por uma monarquia celeste – curiosamente uma monarquia sem rei – que significava um regime de justiça e bem-estar.

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