Preconceito e Orgulho - Artigo de Opinião

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Assisti, na sexta-feira e no sábado passados, a dois eventos de altíssima qualidade, levados a cabo no âmbito da Capital Europeia da Cultura. Não só me deliciei, como senti orgulhoso e vaidade enormes por ser parte, fazer parte, disto que este ano está a acontecer em Guimarães. Na sexta-feira, a Orquestra Chinesa de Macau encheu mais uma vez o Grande Auditório da Centro Cultural de Vila Flor, em concerto que contou com a participação de Carlos do Carmo, um dos mais, se não o mais reputado e considerado fadista (a palavra é redutora para um cantor como Carlos do Carmo).

Conjugação improvável, aquela dos instrumentos tradicionais chineses, com a guitarra e as violas portuguesas e uma voz que, sendo de Portugal, é também de muito, mas muito mundo. No Sábado, foi essa revelação, simpática e de altíssima qualidade que é a Orquestra Fundação Estúdio, que mais terá contribuído para encher por completo o amplo espaço exterior da Plataforma das Artes (com lotação de quase o dobro do Grande Auditório), acompanhando uma cantora alemã, residente em Nova Iorque, senhora de uma voz portentosa e de inusual amplitude, ao serviço de riquíssimo repertório, centrado, sobretudo, na música dita “ligeira” das primeiras décadas do século vinte, com especial incidência nos temas que fizeram dos “cabarets” lugares míticos de divertimento, encontros, desencontros, espionagem, dominação e resistência. E, numa espécie de círculo vicioso, fonte de inspiração para muitas composições musicais cuja melodia, homens e mulheres de hoje, de todas as idades, identificam logo aos primeiros acordes.

Tem sido notável o que a Orquestra Fundação tem feito, não só para o êxito da componente musical da programação da CEC, como ainda para o desencadeamento e aprofundamento do interesse dos vimaranenses pela música erudita, e isto precisamente em consequência da versatilidade da Orquestra, que sem alteração de qualidade, tanto interpreta peças de música clássica e de música erudita contemporânea, como acompanha cantores de música ligeira de cariz internacional, com foi, há tempos, o concerto com os Expensive Soul e, agora, com Ute Lemper, a referida e reputada cantora.
E, se se reparar bem, não passará despercebido o gosto, direi mesmo, o“gozo” com que músicos e maestro dialogam entre si, e todos dialogam com um público que já sentiram ser-lhes fiel e ao qual se empenham em dedicar fidelidade.
Também notável tem sido o aproveitamento que vem sendo dado ao Centro Cultural de Vila Flor, bem como o proveito que, em termos culturais, e não só, dele Guimarães tem obtido, contrariando as vozes dos “novos velhos de Restelo”, que por pensamentos, palavras e ações, sistematicamente tentaram boicotar obras, a que, uma vez tornadas êxito, se apressaram a encostar-se, em tentativa, no mínimo ingénua, para ficarem na fotografia.  Agora é a sanha contra a “sustentabilidade “ da Plataforma das Artes, cuja possibilidade apenas é questionada pelos detratores do costume, sem que, todavia, refiram quais os fundamentos da dúvida e sem que mostrem a mais pequena noção das razões pelas quais admitem não ser sustentável, nem adiantem qualquer ideia como hipótese de sustentabilidade.
Há que referir que a sustentabilidade não se traduz apenas em“auto-sustentação”, devendo, sim, ser analisada sob o prisma dos efeitos, sociais, culturais e económicos que, para o município, poderão advir do funcionamento da Plataforma das Artes, desde que bem gerida esta.

O mesmo se diga quanto à Orquestra Fundação Estúdio. Pode já antever-se que a fixação dela em Guimarães se tornará igualmente uma mais valia para o município, sendo, a meu ver, desejável que o Executivo Camarário desenvolva as iniciativas de que, tal como está a acontecer com o CAMPURBIS, resultem as parcerias que permitam a dotação de Guimarães com mais uma valiosa entidade cultural, que já mostrou ser capaz de desencadear fluxos que acabam por traduzir-se em benefícios sob diversos aspetos, dos quais o económico não é o menos importante. Resumindo, em termos de CEC e suas consequências para o futuro de Guimarães, ao preconceito de uns poucos responde a crença e o orgulho da imensa maioria.

Guimarães 31 de julho de 2012
António Mota Prego (a.motaprego@sapo.pt)

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